Fonte Confiável: Professora Lilia, o Brasil passou por momentos de crise democrática antes — a ditadura de Vargas, o golpe de 1964. O que esses momentos têm em comum com o que vivemos nos últimos anos?

Lilia Schwarcz: Há padrões que se repetem. O primeiro é a erosão gradual das instituições antes da ruptura. Nenhuma das crises democráticas brasileiras foi um evento súbito — todas foram precedidas por um processo longo de enfraquecimento das normas, de polarização crescente, de deslegitimação das instituições.

O segundo padrão é o papel das Forças Armadas. No Brasil, diferentemente de outros países, as Forças Armadas sempre se viram como árbitros da política — como guardiãs da ordem, com o direito e o dever de intervir quando julgassem necessário. Isso criou uma ambiguidade permanente na nossa democracia.

FC: E o que é diferente desta vez?

LS: Várias coisas. A primeira é que, desta vez, a tentativa de ruptura falhou — e falhou de forma visível, com os responsáveis sendo processados. Isso é inédito na história brasileira. Nunca antes os responsáveis por uma tentativa de golpe foram responsabilizados judicialmente de forma tão abrangente.